14/05/2008
O fenômeno das ''praças sem cidade''

 

Livro de urbanista chinês analisa espaços públicos

O que foi pensado como um refúgio de tranqüilidade em meio ao caos urbano acabou virando deserto. É dessa forma que o urbanista chinês radicado em São Paulo Sun Alex descreve o que ocorreu com pelo menos seis praças de São Paulo no livro Projeto da Praça - Convívio e Exclusão no Espaço Público (Editora Senac, 291 páginas), lançado nesta semana. Para ele, praça que é praça tem gente circulando e reflete a diversidade do entorno.

Produto da tese de doutorado que defendeu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o livro analisa, entre vários tópicos, o impacto do paisagismo moderno americano que desembarcou em São Paulo nas décadas de 60 e 70. A Praça Roosevelt, no centro, seria a obra-prima desse período.

A praça consiste em uma imensa armação de concreto cujo patamar principal, que as pessoas deveriam usar para relaxar, encontrar os amigos ou passear com o cachorro, fica a 1,80 metro do chão. Quem a vê de fora enxerga apenas o muro. Conclusão: poucos a freqüentam, a não ser traficantes de droga e batedores de carteira. "Esses problemas se reproduzem em outros espaços públicos da cidade, mesmo que tenhamos ciência de que são muito nocivos", lamenta Alex. A Roosevelt passa hoje por ampla reforma, cujo objetivo é derrubar a praça suspensa e nivelá-la ao chão, eliminando arbustos e construções que impeçam a observação do espaço de quem vem de fora. "A possibilidade de enxergar todo o espaço, de ser aberto e não cheio de altos e baixos, becos e outras coisas, dá a sensação de segurança necessária aos freqüentadores", explica o especialista.

Ele desconhece o novo projeto da Roosevelt, mas afirma que a reforma da Praça da Sé, no centro, entregue no ano passado, não conseguiu atingir esse objetivo, que era o de torná-la mais segura e com menos becos. "É uma questão de projeto, mesmo. Acho que esse não obteve sucesso", considera Alex, que, hoje, trabalha também como paisagista. Outras praças recém-reformadas são analisadas em seu livro, como o Arouche e a D. José de Barros.

"A do Arouche tem duas partes que não se integram. Uma mantém o desenho original, e a outra sempre é reformada", diz. "No Brasil, há a cultura da reforma. Parece até que não fazemos a manutenção adequada nem investimos em projetos corretos para ter de reformar, na cultura política de inaugurar o espaço", analisa Alex.

As praças européias são citadas como exemplo no livro, entre as quais a Plaza Mayor, em Madri, Espanha, um imenso quadrilátero livre, por onde se pode fazer qualquer trajeto e que destaca a arquitetura dos prédios ao redor, e a Piazza del Campo, em Siena, Itália, também um espaço amplo, e, a exemplo da paulistana Sé, em declive. "A questão da Sé é que ela continuou sendo uma praça cheia de obstáculos. A arte do projeto está em justamente criar um espaço que integre."

Alex acredita que o Metrô acabou involuntariamente condenando algumas praças ao esquecimento. Ele destaca a da Liberdade e a de Santa Cecília, onde as escadarias e as floreiras de concreto tornaram o espaço confuso, cheio de altos e baixos, becos, locais "desorientadores" em sua avaliação.

Todas essas praças são "filhas" da Praça Roosevelt e surgiram mais ou menos na mesma época ou pouco tempo depois. Segundo Alex, pior é a Praça Júlio Prestes, em frente à Sala São Paulo, que foi inaugurada no fim da década de 90 e repetiu a mesma estética ultrapassada. "É um espaço suspenso também, fechado, onde não conseguimos enxergar nenhum trajeto", critica. "E o pior: está ao lado de uma escola de música, próxima de locais do centro que fervilham de gente, e não reflete em nada essa diversidade. É um espaço deserto", afirma.

O urbanista prevê o mesmo caminho para os espaços verdes e de lazer criados dentro dos novos empreendimentos imobiliários, os quais ele chama de "praças sem cidade". Na longa análise do livro, rica em ilustrações e perspectivas artísticas, Alex aponta o impacto dos projetos urbanos americanos pós-recessão, do New Deal e até da 2ª Guerra Mundial como oposição à idéia da praça como espaço de convívio. Uma vez eleitos a casa isolada com jardim como ideal de moradia e o automóvel como meio de locomoção, foi decretada a agonia desse espaço público.

No Brasil, até mesmo a suposta oposição da ditadura militar a espaços que favorecessem a aglomeração de pessoas é citada como um reforço à adoção em escala do refúgio de concreto como estilo preferencial das praças paulistanas. "Recentemente, a Praça Pérola Byington retirou a cerca que a isolava dos pedestres. De repente, voltou a ser freqüentada, as pessoas começaram a passar pelo meio, parar ali. Fechado para ser seguro, aquele espaço conseguia ser mais inseguro."    (Sérgio Duran)

 
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